sexta-feira, 27 de abril de 2012

Uma breve despedida

         O sol começa a nascer, anunciando mais um dia. Um dia que para muitos foi especial, menos para mim. A noite seria longa, silenciosa e quase não me lembro quais os pensamentos que me vinham a cabeça, somente o vazio, um grande vazio. Era como se meu corpo flutuasse, como se tudo fosse um sonho, como se meu corpo estivesse entorpecido pela dor e pelo vazio.
        As vezes um carro passava na rua e do outro lado, olhando de uma janela do sétimo andar de um prédio residencial, onde morava uma amiga de infância, estava eu observando a movimentação de pessoas que eu conheci muito bem mas meu estado de torpor não me deixava compartilhar de suas presenças. A dor e o vazio não me deixavam. Foi assim até o sol despontar seus raios no céu, que com a luz do dia dava para ver que não haviam nuvens. Seu azul era maravilhoso mas a dor e o vazio tiravam tudo de mim.
       As horas foram passando e dentro de um carro seguimos viagem rumo a Serra Negra-SP- onde ficaria depositado parte de mim. O céu continuava limpo, mas o ar estava parado, tudo parecia parado, só uma brisa as vezes tocava meu rosto molhado de lágrimas, o silêncio só era quebrado pelo vai e vem de pessoas que eu não conhecia, mas que conhecia a parte de mim que ali estava.
       A hora estava próxima e como não se tem jeito de parar o relógio, chegou o momento do adeus, a tampa de madeira se fechou e com passos lentos de quem não quer ir ao fim do caminho, caminhamos. Caminhei com minha dor doendo mais forte e meu vazio cada vez maior até que os passos silenciaram e todos parados só olhando um único homem com sua colher de pedreiro colocando tijolo por tijolo subindo uma pequena parede e me separando fisicamente de alguém que é tão importante até hoje para mim. O silêncio só era quebrado pelo barulho da colher no tijolo. A cada batida, a dor.
         Até que tudo terminou. Passos foram se ouvindo e lá estava eu parada entorpecida com a minha dor e meu vazio, tão perdida e me sentindo tão só que minha vontade era de estar ali com ela, minha mãe querida. Era 27/08/1983. Já se passaram 28 anos e muita coisa aconteceu, mas a saudade até hoje as vezes faz doer o coração, mesmo tendo conhecido a alegria de ser mãe 11 anos depois.

2 comentários:

  1. Cris, vc descreveu perfeitamente! Senti exatamente o que vc descreveu quando meu pai morreu. ......
    Priscilla

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  2. Mami, eu sempre choro com esse texto. Vc descreveu perfeitamente seus sentimentos.
    Te amo e espero que eu demore muuuuuuuuito pra sentir isso.

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