Sou a caçula de quatro homens e com a doença de minha mãe, a família desestruturou bastante. Cada um sentiu de um jeito e eu pela pouca idade senti muito.
Mamãe manifestou a doença quando eu tinha mais ou menos doze anos e morávamos em São Paulo. Nessa idade não tinha muita noção do que estava acontecendo e nem me lembro bem dos fatos.
Meu pai, filho único, também não teve muita estrutura emocional para resolver algumas questões básicas e a vida foi seguindo. Somente quando mudamos para Santos em 1978 é que mamãe foi diagnosticada com o Mal de Alzheimer. Naquela época não se falava tanto e nem tratamento tinha direito.
Com dezesseis anos senti todo o peso e o desamparo que me foi colocado nas mãos pelo fato de ser mulher. Lutei e relutei para não sair de Santos e ir morar em um sítio e cuidar de todos (pai, mãe e avó). No final de 1981 início de 1982, fui morar em uma república com algumas meninas. Não teve outro jeito e mamãe foi morar conosco em meados de 82. Papai nos mantinha financeiramente, e só.
Cuidei dela durante quase um ano e dois meses e antes dela falecer, tive um esgotamento nervoso.
Fui cuidada pela mãe de uma das meninas da república, e por um médico que através de remédios me deixou dormindo por uma semana (sonoterapia).
Fiz 21 anos no dia 25 de agosto e no dia 27, mamãe faleceu.
Acordei naquele dia chorando e assim fiquei o dia todo sem saber porque. Meu irmão veio me visitar e me encontrou daquele jeito e com muita cautela me convenceu a arrumar uma malinha e ir ficar uns dias com papai em Pinhal, onde ele morava desde 1981, quando se aposentou. Disse que mamãe não estava bem e que precisávamos ir para São Paulo, onde ela estava hospitalizada. Na rodoviária minha cunhada me deu um calmante e contaram que ela já havia partido, daí para frente lembro-me de poucas coisas.
No dia seguinte, depois do enterro vim para Pinhal com papai e me fechei no luto. Não tinha forças pra reagir. Assim o tempo foi passando e aos poucos tive que retomar minha vida, meus estudos (havia parado para cuidar dela) e meus exercícios físicos. Até que fui surpreendida pelos primeiros sintomas de Miastenia Gravis. Levou muito tempo para descobrirem oque eu tinha. Passei por nove médicos e só ia piorando até que a médica que diagnosticou a doença de minha mãe me encaminhou para o médico certo e depois de alguns exames, a Miastenia foi confirmada. Comecei com os medicamentos que me ajudaram muito.
Já havia concluído o segundo grau como técnica em agropecuária e a Miastenia estava estabilizada quando no começo de 1988, conheci meu marido. Desde o começo, contei para ele sobre meu problema e assim mesmo começamos a namorar, foram dois anos e meio de muitas alegrias, tristezas e compartilhamentos, sempre juntos.
A Miastenia ficou estabilizada até 1990, quando tive uma piora e nem com quantidades maiores de remédios não melhorava. Passei por uma consulta com o Prof. Dr. José Lamartine de Assis e com sua indicação, fui encaminhada ao Hospital das Clínicas. Depois de conseguir a internação, fiquei três meses esperando a vez de me submeter a uma Timectomia (retirada do timo).
Em março de 1991 fui operada. Quase morri, mas como vaso ruim não quebra fácil, aqui estou.
A doença e oque vi Hospital das Clínicas me fez uma pessoa melhor.
No sofrimento crescemos e aprendemos a dar valor em coisas que antes passavam desapercebidas. Hoje depois de 21 anos estou bem, ainda tomo remédios mas tenho uma vida normal. Me casei em junho do mesmo ano, logo que voltei de São Paulo. Tive dois filhos, que só me deram e dão até hoje muita alegria.
Papai faleceu depois que eu já tinha as crianças, foi outro baque, e os filhos que me fizeram reagir.
Sou muito feliz, me sinto muito amada e agradecida por tudo.

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